O Culto na Quebrada

Depois de uma semana intensa de trabalho, não nos passa nada na cabeça que não nos divertir e aproveitar ao máximo nosso pouco e suado momento de lazer que os fins de semana proporcionam.

Não importa qual é o programa, seja ele um cinema, um futebol com os amigos ou até mesmo nos deliciar assistindo os ótimos programas que a TV aberta nos oferece, não importa. Apenas queremos um pouco de entretenimento e de descanso daquela rotina dura que nossa capital nos impõe.

Este fim de semana se inseriu em minha programação um evento muito importante. Era a festa de um amigo não muito distante, em uma região de São Paulo que até então só conhecia pela sua fama de região violenta.


A festa aconteceu no Jardim Ângela, quadrado muito freqüentado por políticos em época de eleições e que embora eleja muitos destes, é um território esquecido e que deixa explicito o descaso dos mesmos.

Fiquei bastante impressionado com o tamanho do lugar, parecia um mar de desorganização, casas em cima de casas e morros enfileirados de concreto. Até agora estou atônito com o avanço descontrolado do povoado e a falta de estrutura que ali os cerca.

Esse é para mim o modelo de gestão DEIXA A VIDA ME LEVAR! Reflexo daquilo que nos tornou habitual: primeiro o povo, depois a estrutura = tarde demais... Desisto!

A festa foi uma delicia, mesmo tendo um apelo religioso que tomou conta da proposta, estava mais para um culto religioso do que realmente para uma festa, mas nada que depois de alguns minutos de belas cantorias não fizesse me inserir no próprio ambiente.

O pastor de cinco em cinco minutos se levantava para pregar a palavra do Senhor, grupos de canto desfilavam seus talentos vocais que todos sabiam na ponta da língua e todos agradeciam a benção e a oportunidade de poder estar ali, no seu momento de entretenimento.

Não passou muito tempo e já estava eu cantando e me deliciando em ver pessoas com os sorrisos mais esticados. O anfitrião da festa estava muito contente por nossa presença, a todo minuto vinha agradecer por ter comparecido, e se justificava de todas as formas por aquilo não fazer parte da minha realidade o que me deixou muito constrangido.

Sai de lá com a sensação de dever cumprido, como se aquilo fosse um convite de Deus para olhar outros umbigos. Não acredito em religião, não acredito em pastores, padres e bispos, mas nele lá de cima acredito e muito.

Sempre é muito fácil criticar a força da religião para este emaranhado fiel da palavra de Deus, mas o que é interessante é que mesmo com tantos problemas, a fé ainda está viva nos corações desses desamparados mortais que todos os dias cruzam a cidade para atender você na padaria, no restaurante, no bar, no cinema, que aparam as arvores da sua rua bacana e limpam a sujeira das bitucas do seu cigarro americano.

Só agora descobri quem os atende!

Louvemos ao Senhor!

segunda-feira, 29 de março de 2010

6 responses to O Culto na Quebrada

  1. Muito bom seu texto, pois nele podemos refletir sobre vida das pessoas que vieram de tantos lugares deste Brasil, e fazem São Paulo crescer, apesar dos paulistas natos e políticos de São Paulo os tratarem com tanto descaso, e graças às igrejas locais houve grande melhoria na vida destes moradores.
    Podemos notar claramente que em todos os lugares, onde há pessoas menos favorecidas, a grande presença de igrejas protestantes, que se destaca por transformar meros membros da comunidade em grandes lideres religiosos da igreja, pois esta facilita o crescimento de meros normais em grandes pastores, coisa que a igreja católica dificulta.
    Graças a este tipo de igreja podemos ver grandes melhorias de comportamento dos menos favorecidos, pois os mesmos que agora estão na igreja antes estavam em bar bebendo e roubando.

  2. Paulo André says:

    Se me permite, gostaria de acrescentar que a religião está alienada também aos países subdesenvolvidos. Isto explica muito sobre o fanatismo religioso no países do Oriente Médio.

    Na Ásia um exemplo interessante é a Índia, um país que é dominado pela pobreza, onde a desigualdade social faz com que a linha do fanatismo e comprometimento com a religião está alinhada ao acesso social.

    Bacana o texto!

  3. Felipe says:

    Betão,

    Parabéns! Excelente texto!

    Bjs do seu brother que está longe.

  4. Para os que não tem esperança no Governo, não têm salários decentes e precisam atravessar a cidade para servir a outrem é preciso esse ópio. Afinal, se eles não acreditam nisso e no pensamento ultrarromântico de que outrora será melhor, com certeza teríamos suicídios em massa.
    Deve ser muito divertido visitar esse lugar, como se vai num museu ou um num circo.
    Abraço.

  5. Gostaria de agradecer a todos que deixaram seus comentários, em especial o último, já que o mesmo, a tempos não nos prestigia com sua contribuição nos debates aqui começados.

    Contrapondo seu comentário, o importante nesse momento não é fazermos ironias com relação aos lugares visitados, e sim elencar de forma motivadora o fato de estar utilizando meu espaço para retransmitir uma mensagem que muitos daqueles que me seguem não tiveram a sensibilidade para perceber.

    Ao contrário do que imagina, venho de uma família muito simples e que faz um trabalho importante na comunidade de itaquera, onde vivi quase minha vida inteira.

    Estou mais que acostumado a frequentar lugares como estes ou até piores e na minha percepção, não os acho nada divertido.

    Aguardo novos comentários se possíveis construtivos, que abrilhante ainda mais os temas do blog.

    Acho excelente sua escrita, e acredito para que tal chegasse a este ponto, foi fruto de muita dedicação no que desrespeito a repertório intelectual. Suponho com isso, que realmente tem muito a acrescentar a discussão.

    Ficaremos aguardando sua participação nos próximos posts.

    Abraços

  6. A despeito do que imagina, não julgo vc e sim, o que vc diz. Não é certo nem errado: não tenho essa capacidade julgadora. No entanto, quando falamos, daí eu me embaso num filósofo russo chamado Bakhtin, reproduzimos discurso e, pro conseguinte, indeologias. Digo isso para que vc tente entender um pouco dessa minha "implicâncias" contigo. E se implico é porque enxergo no teu discurso muitas discordâncias com o que penso. Mas isso é natural. Eu realmente não sabia que vc tinha origem simples. Só conheço o que vc escreve e, pelo que escreve, não vejo essa origem.
    Grande abraço, fico lisonjeado com pelo que acha de mim. Quando quiser visitar meus blogs também, fique à vontade.

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